Na primeira declaração dos observadores internacionais sobre a eleição no Brasil, o Carter Center enterrou as teorias conspiratórias sobre os resultados do voto no país. Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro, seus aliados e mesmo Donald Trump levantaram suspeitas sobre o processo que deu a vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Num comunicado emitido nesta terça-feira, a missão de especialistas eleitorais do The Carter Center “parabeniza o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela administração do segundo turno presidencial, realizado em 25 de outubro de 2026”.
“Apesar de complicações de última hora no dia da eleição, os votos de mais de 499 mil seções eleitorais foram apurados rapidamente, e os resultados foram anunciados poucas horas após o encerramento da votação”, disse.
Uma das conclusões aponta que:
“A decisão de última hora de alterar o horário de votação criou um ambiente operacional desafiador. Ainda assim, o sistema divulgou os resultados tempestivamente no site e no aplicativo do TSE na noite da eleição”.
A instituição fez ainda uma avaliação sobre o andamento do processo. “O comparecimento aumentou em quase 3 milhões de votos em relação ao primeiro turno. O presidente Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro – o que representa uma diferença de 4,4 milhões de votos. Antes da eleição, ambas as campanhas manifestaram confiança nos sistemas eleitorais e se comprometeram publicamente a aceitar os resultados”, disse.
“O Carter Center, juntamente com observadores nacionais e observadores internacionais independentes, testemunhou a conclusão bem-sucedida da eleição presidencial de 2026 e o contínuo compromisso do Brasil com a democracia. Respeitar a vontade dos eleitores é fundamental para a democracia. Candidatos e seus apoiadores devem respeitar os resultados anunciados. Quaisquer alegações fundamentadas em evidências devem ser encaminhadas pelas vias legais estabelecidas”, afirmou Jennie Lincoln, assessora sênior do Carter Center para a América Latina e o Caribe e Chefe da missão.
A missão foi composta por integrantes da Alemanha, de Portugal e dos Estados Unidos, além de funcionários do Carter Center. O trabalho se concentrou no marco legal que rege as eleições, no uso da tecnologia de votação e na educação dos eleitores..
As observações iniciais incluem:
· Aspectos jurídicos da administração eleitoral. A eleição foi administrada por um corpo de servidores eleitorais altamente profissional e qualificado. O processo foi bem-organizado e transparente, com oportunidades de fiscalização por partidos políticos e eleitores. O sistema de queixas e de impugnação de decisões é complexo, e essa eleição foi marcada por um alto nível de judicialização. Houve diversas decisões inconsistentes e/ou contraditórias sobre aspectos relacionados à eleição por parte do TSE, do Supremo Tribunal Federal (STF) e de outras instâncias judiciais. Um exemplo emblemático é a controversa prorrogação de duas horas no horário de votação, determinada após o encerramento da votação. Houve ainda alegações de interferência e de viés algorítmico nas plataformas da Meta, às quais o TSE respondeu exigindo que a empresa garantisse tratamento igualitário a todas as candidaturas. O TSE também solicitou mais informações, exigindo que a empresa cumprisse a regulamentação nacional. Investigações mais aprofundadas seguem pendentes.
· Tecnologia de votação. O TSE utilizou, no segundo turno, o mesmo sistema eletrônico de votação empregado no primeiro turno. A decisão de última hora de alterar o horário de votação criou um ambiente operacional desafiador. Ainda assim, o sistema divulgou os resultados tempestivamente no site e no aplicativo do TSE na noite da eleição.
· Educação do eleitor. O TSE intensificou os esforços de educação eleitoral entre os turnos. Exemplos incluem o aumento das publicações de desmentidos de desinformação, como esclarecimentos sobre mudanças nos locais de votação e sobre o procedimento de transmissão dos votos. De forma louvável, o TSE enviou notificações direcionadas pelo aplicativo e-Título aos eleitores cujos locais de votação foram alterados, em cerca de 100 localidades em todo o país. Quase metade dos eleitores brasileiros utilizam esse aplicativo.




