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Prefeituras de SC injetam R$1,6 mi de verba pública em produtora de shows evangélicos


Cerca de R$1,6 milhões em recursos públicos de diferentes prefeituras de Santa Catarina foram direcionados a contratos com uma única empresa que realiza a produção de shows de artistas gospel entre 2024 e 2025. A Criative Music Ltda recebeu por volta de R$ 500 mil somente dos caixas da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer de Florianópolis, sem licitação, para a realização de eventos religiosos neste mesmo período.

Um destes eventos evangélicos bancados com verbas públicas ocorreu no último final de semana, na Beira-Mar Continental de Florianópolis. O evento Tempo de Avivamento não teve seu nome registrado nos documentos oficiais que envolvem o pagamento dos artistas. Contratos assinados pelo secretário de cultura Roberto Katumi Oda citam que os recursos seriam aplicados em “evento cultural e religioso”.

Em 2024, a prefeitura da capital de Santa Catarina já havia direcionado R$ 370 mil em recursos sem licitação para a produtora que agencia carreiras consagradas no ramo gospel. Os contratos foram para a Marcha para Jesus.

Este ano, além de recontratar a mesma produtora para outro evento evangélico, a secretaria também investiu cerca de R$ 500 mil na programação da Marcha para Jesus. Somando todas as cifras, a Prefeitura de Florianópolis gastou, em 2024 e 2025, mais de R$1,3 milhões de verbas públicas da cultura em eventos evangélicos.

No evento Tempo de Avivamento, realizado com recursos públicos e com transmissão pelo Youtube, além dos louvores e da apresentação dos artistas da Criative e do artista Waguinho, contratado por R$ 60 mil por meio de outra produtora, também houve falas de conteúdo político.

A página do evento no Instagram segue políticos como o governador Jorginho Mello, o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, e a vice-prefeita Maryanne Mattos. Além disso, também tem conexão com a página de assessoria do secretário da Casa Civil do governo de Santa Catarina, Kennedy Nunes.

O governador Jorginho Mello foi mencionado por um dos idealizadores do evento, consultor executivo na Casa Civil com salário bruto de cerca de R$ 20 mil. Alexandre da Silva disse, no início da transmissão no Youtube, em um podcast, que era assessor do governador há 31 anos.

A secretaria de Comunicação chegou a fazer um aviso de pauta sobre a presença de Jorginho Mello no evento, registrado como “um marco inédito no calendário cristão catarinense”. A presença não foi confirmada nos registros oficiais do governo do estado.

O assessor mencionou que Jorginho havia “cedido” a Camerata, orquestra de câmara privada de Santa Catarina, para participar da programação. A Camerata recebeu R$ 10.258.500 em recursos públicos da Fundação Cultural Catarinense em 2025, mas não há registros de pagamento para a participação no evento religioso.

Além do governador, o vereador de Florianópolis, Pastor Giliarde Torquato, também foi citado e falou no evento. Ele afirmou que é importante a presença de homens e mulheres de Deus na política para mudá-la e para que seja um local onde o Espírito Santo possa reinar.

Dez sócios e centenas de contratos públicos

A produtora Criative recebeu, junto com as verbas de Florianópolis, um total de R$ 1.609.000 em recursos públicos, conforme registros dos diários oficiais dos municípios do Estado nos anos de 2024 e 2025.

Cidades como Timbó, Jaraguá do Sul, Balneário Piçarras, São Francisco do Sul, Trombudo Central, Itapema, Balneário Arroio do Silva e Garopaba investiram em contratos que variam de R$ 59 mil a R$ 180 mil.

A empresa tem pelo menos 10 nomes no seu quadro de sócios e administradores, alguns deles artistas agenciados, como é o caso de Andre e Felipe Santoro Valero, conhecidos artisticamente como André & Felipe, do sertanejo gospel.

Com sede em Vila Velha, no Espírito Santo, apresenta-se como a “maior agenciadora gospel do Brasil”. Nomes como o de Aline Barros e de Luciano Camargo, que faz dupla com Zezé di Camargo na carreira artística, também compõem o portfólio.

Os contratos seguem o padrão da inexigibilidade de licitação, comum para eventos artísticos-culturais com verbas públicas. Essas transações são exceções ao considerarem inviável um processo de competição ou concorrência. Mas, ao mesmo tempo, revelam também uma priorização do agente público para destinação de verbas – que, no caso da cultura, também podem se transformar em editais de ampla concorrência.

Somente no sistema de buscas do Google há mais de 320 ocorrências de contratos da Criative com entidades públicas de diferentes regiões do país por inexigibilidade de licitação. Alguns deles, como no município de Inhambupe, na Bahia, com gasto de R$ 250 mil para um único show.

Em 2022, a empresa teve um contrato com a prefeitura de Canarana, no Mato Grosso, suspenso por determinação da Justiça. Um show de R$ 95 mil foi cancelado por meio de uma ação popular, por violar a moralidade e eficiência da administração pública. A cidade  estava, na época, sob o impacto de decretos de emergência por conta dos altos índices de doenças como dengue, zika e arboviroses.

Aumento na receita

Dados contábeis da empresa disponíveis no Portal de Acesso à Informação do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Municipal indicam que, em janeiro de 2022, a Criative tinha receita bruta de R$ 497,5 mil, passando para mais de R$7 milhões em dezembro do mesmo ano.

Shows de música gospel podem ser patrocinados por verbas públicas, desde que não sejam em favorecimento a uma igreja. Tramita, na Câmara, um projeto de lei que reconhece a música gospel como manifestação cultural e que adequaria as regras para eventos promovidos por igrejas. Este projeto, entretanto, está associado à Lei Rouanet.

A PL 2407/2015 está pronta para tramitar na Comissão de Constituição e Justiça e chegou a ser colocada, mas retirada de pauta em junho deste ano. O texto de justificativa fala em equívoco da legislação que permite o financiamento público dos shows religiosos sem estarem associados a igrejas.

A Prefeitura de Florianópolis foi consultada sobre os contratos com a Criative, mas não retornou até o fechamento desta coluna. A empresa disse que não divulga dados sobre seu faturamento, mas afirmou que não faz prospecção de contratos públicos e que são as próprias prefeituras que procuram os artistas agenciados.





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