Por Heloisa Vilella
As emendas parlamentares, e dos operadores do sistema no congresso, nos estados e municípios, deu mais uma prova de persistência este mês. O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) entregou ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, uma denúncia feita por um funcionário da Câmara dos Deputados apontando que a servidora Mariângela Fialek, proibida pelo STF de trabalhar com emendas parlamentares, está de volta à ativa, atuando no gabinete do primeiro vice-presidente da câmara, Altineu Côrtes (PL-RJ).
Mariângela era assessora de Arthur Lira, quando ele presidia a Casa, e foi alvo de um mandado de busca e apreensão da PF justamente por conta do gerenciamento de emendas parlamentares. Ela foi afastada do trabalho temporariamente. E está proibida de trabalhar com a distribuição do dinheiro na Câmara. Mas, segundo um funcionário que pediu para não ser identificado, estaria descumprindo a determinação de Flávio Dino.
A queda de braço dos autores de emendas e da Justiça não é exclusividade da capital federal. Em Ipojuca, Pernambuco, as investigações da polícia já levaram à prisão do presidente da Câmara Municipal, no fim do ano passado. E a investigação continua, com possibilidade de uma nova leva de ações policiais nas próximas semanas. Lá, além do desvio de dinheiro público, as autoridades investigam um assassinato ligado ao esquema das emendas parlamentares.
A professora universitária Simone Marques da Silva aparentemente participava, ou conhecida de perto, o esquema de corrupção que drenava dinheiro público para algumas empresas de Ipojuca. Chamada pela Justiça, ela foi à delegacia depor, no dia 28 de outubro de 2025, mas o delegado não estava. Simone ficou de voltar no dia seguinte e seguiu para a casa onde morava com os pais e com o filho pré-adolescente. Quando cruzou o portão, dois homens chamaram do lado de fora. Ela se virou para atender e foi assassinada ali mesmo, na frente da mãe.

Os vizinhos, que conheciam Simone, disseram ao ICL Notícias que não viram nada. Um ou outro ouviu o barulho dos tiros. Mas todos têm medo de falar abertamente sobre o assassinato. Um casal idoso, que mora duas casas distante da cena do crime, contou que o enterro de Simone estava lotado e garante que ela era muito querida na rua sossegada, de moradores de longa data. Os pais da professora de 46 anos sumiram da rua com o neto.
Simone não teve tempo de contar o que sabia. Mas ela dava aulas em uma universidade que recebia dinheiro de emendas municipais e o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público de Pernambuco, estava investigando os repasses já fazia quase um ano. Como resultado das investigações, o presidente da Câmara, conhecido como Flávio do Cartório (PSD), e o vice, Professor Eduardo (PSD), foram presos junto com o vereador Júlio Marinho (PP), em novembro do ano passado. No carro, a polícia encontrou uma sacola com mais de R$ 14 mil em espécie. Em fevereiro deste ano, um policial civil foi afastado das funções que exercia porque estava dentro do carro, com o presidente e o vice, supostamente passando informações sigilosas sobre o inquérito.
As autoridades desvendaram uma cadeia de empresas, estabelecidas como organizações sem fins lucrativos, que recebiam a maior parte das emendas do município. Por lei local, 2% da receita corrente líquida de Ipojuca tem que ser revertida em emendas impositivas, distribuídas pelos vereadores. No ano passado, o volume de dinheiro chegou a cerca de R$ 40 milhões.

Ipojuca é a cidade de maior renda per capita de Pernambuco. Além de ser um polo turístico importante, com a conhecida cidade de Porto de Galinhas, o município tem também a refinaria Abreu e Lima e o Porto de Suape. As praias de Muro Alto e Toquinho não deixam nada a desejar a moradores de primeiro mundo. Mansões à beira-mar, palmeiras e guaritas de segurança compõem o cenário da vida dos que têm acesso aos recursos que o município gera.
Mas a 23 km do paraíso de águas cristalinas, a população de bairros como Camela tem cenas desconcertantes. Um córrego corta o bairro e recebe o esgoto de todas as casas, porque não existe saneamento básico. De botas de borracha, um rapaz mostrou à equipe do ICL Notícias o que tinha acabado de recolher com uma peneira, nas águas contaminadas do córrego. Um peixe pequeno, chamado de piaba. “E vai fazer o que com ele?”, perguntei. “Vou fritar e comer”, respondeu.
João Bosco, morador de Camela, não é músico, mas vive grudado no som de uma grande caixa que coloca no pátio comum da comunidade. Ele não poupa críticas aos políticos locais. “A Prefeitura devia investir pro povo! Não pro próprio bolso que é o que muitos fazem”, disse.
Dona Claudia Antonia diz que além da falta de esgoto, o córrego enche na época de chuva, e invade as casas levando para dentro das moradias todo o lixo acumulado. O vizinho dela, seu Edvaldo, mora em Camela desde 1982 e diz que o que a comunidade mais precisa é de resolver o problema do esgoto. Outro morador, que pediu para não ser identificado, apontou o calçamento da rua: “olha a merda que fizeram aí! Tá tudo rachado e não tem nem dois meses”.
O dinheiro que falta em Camela, sobra em organizações fundadas pelos vereadores da cidade ou amigos deles. É o caso da associação Filhos de Ipojuca, do presidente da Câmara. Supostamente, ela ajuda crianças autistas. Mesmo sem experiência alguma na área de saúde, recebeu R$ 5 milhões de emendas em 2022. E quase todos os vereadores da cidade contribuíram.
Professor Eduardo, o vice-presidente interino da assembleia, passou um dia na cadeia e foi solto. Assumiu a direção da casa e não quis gravar entrevista com o ICL Notícias, mas conversou conosco e jogou a culpa dos desvios de verba na Prefeitura: “A gente destina a emenda, mas quem dá o termo de fomento é a prefeitura, ela é que diz se a empresa está apta ou não”.
Perguntado sobre os motivos que fazem com que nenhum vereador destine verba para obras de saneamento, que a cidade tanto precisa, inclusive porque atrás do prédio da Câmara vive uma comunidade inteira que precisa do serviço, Eduardo respondeu: “No Brasil inteiro, mas a gente acredita que as coisas não se resolvem da noite para o dia”.

As investigações de desvio de emendas, em Ipojuca, começaram com uma associação fantasma, de skate, que recebeu R$ 5 milhões. Mas logo evoluíram e passaram a focar em um desvio de cerca de R$ 39 milhões do dinheiro público. Em 25 de outubro de 2025 a polícia civil deflagrou a Operação Alvitre para vasculhar os crimes. Três dias depois, Simone Marques da Silva foi assassinada. Além de professora universitária, ela também era presidente de uma associação que recebia dinheiro de emendas.
Encarregados da investigação, o coordenador do Gaeco, Roberto Brayner, e a promotora Katarina Gouveia, contaram ao ICL Notícias que as ligações entre os vereadores e as associações eram todas explícitas. Ninguém se preocupou em esconder os rastros dos desvios. Brayner ficou chocado com a percentagem das cobranças e desvios.
“Em depoimento de algumas testemunhas que faziam parte dessas associações já foi aventada a divisão. 80% retornam e 20% vão”, disse Brayner. Os 80% restantes ficam com a associação? “Não!”, diz Katarina, “Ao contrário. 80% voltam para o secretário ou para alguém ligado à gestão, ao vereador. E 20% efetivamente são destinados para executar o projeto”, afirmou a promotora. Ou seja, 10% é coisa do passado.
Em Rio Largo, Alagoas, as investigações não falam no percentual desviado. Mas o município foi campeão de destinação de emendas do estado enquanto o deputado federal Arthur Lira era presidente da Câmara dos Deputados, em Brasília. Reduto eleitoral do deputado, a cidade recebeu repasses até mesmo de comissões que não tinham parlamentar algum do estado, por ordem de Lira. Esse caso foi motivo de denúncia da Polícia Federal que conseguiu um mandado de busca e apreensão junto à ex-assessora de Lira na câmara, a Mariângela Fialek, mencionada no começo dessa reportagem.
Na época, a PF colheu depoimentos de cinco deputados, um senador e uma servidora legislativa sobre a execução irregular de emendas parlamentares. Eles relataram situações em que Rio Largo foi desproporcionalmente, e surpreendentemente, favorecida. E ainda assim, a cidade convive com a ausência de serviços essenciais.

O bairro de Vila Rica convive, há quatro anos, com uma cratera que deveria ter se tornado em sistema de distribuição de água e escoamento de esgoto. Mas segue abandonada, com manilhas encobertas pelo mato que cresceu. E a cada chuva forte, o mato cresce e as bordas da cratera desabam, aumentando o buraco tornando ainda mais impossível a vida dos moradores. Eles já convivem com uma grande quantidade de terra acumulada nas portas e garagens. Os carros não podem entrar e sair.
Quando não mata por tirar da saúde e do saneamento básico recursos essenciais para inúmeros municípios, os desvios de orçamento são responsáveis até por assassinatos.




