Por Cleber Lourenço
Servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ouvidos pelo ICL Notícias criticaram a decisão da Polícia Federal de arquivar a apuração preliminar sobre uma possível interferência externa nas eleições brasileiras. Uma das fontes classificou o encerramento como prematuro e afirmou que havia elementos que deveriam ter sido aprofundados antes de a PF decidir não abrir um inquérito.
“O arquivamento causa estranheza porque havia elementos que justificavam, no mínimo, o aprofundamento da apuração. A preocupação com possível interferência externa não surgiu agora nem nasceu de especulação da imprensa. É um risco que já vinha sendo acompanhado pela inteligência. Encerrar a apuração sem esclarecer se houve financiamento, quem poderia ter recebido recursos e se existiu atuação coordenada no Brasil deixa perguntas importantes sem resposta”, afirmou um servidor da Abin que não quis se identificar.
A PF decidiu nesta quarta-feira (7) encerrar o procedimento aberto a partir de uma representação da Advocacia-Geral da União (AGU). A Diretoria de Inteligência Policial (DIP) concluiu que não havia indícios mínimos que justificassem a instauração de um inquérito.
A decisão ocorreu apenas três dias depois de o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmar publicamente que a apuração estava em andamento e afirmar que o assunto exigia cuidado para que a corporação não desprezasse informações relevantes.
No domingo (4), dia do primeiro turno das eleições, Andrei explicou que a representação havia passado pela Corregedoria-Geral e estava sob análise da DIP. Naquele momento, ainda não havia sido publicada portaria de abertura de inquérito. A informação foi dada em primeira mão pelo ICL Notícias.
“Assuntos como esse merecem o cuidado, o escrutínio, a pesquisa correta para que nós não tenhamos nenhum alarde antes e também para não termos a possibilidade de desprezar algum dado relevante”, afirmou o diretor-geral.
Abin já acompanhava risco de interferência
A preocupação relatada pelos servidores da Abin é anterior à abertura do procedimento pela Polícia Federal. Na semana passada, antes mesmo de Andrei anunciar publicamente a apuração, fontes da agência relataram ao ICL Notícias que o risco de interferência estrangeira nas eleições vinha sendo acompanhado pela inteligência brasileira.
Uma delas afirmou à reportagem ter recebido de integrantes da própria agência a informação de que a Polícia Federal analisava o tema. A fonte também disse que a possibilidade de ações externas destinadas a influenciar o ambiente político brasileiro já estava no radar da inteligência.
“A maior preocupação é que países alinhados ao Departamento de Estado americano passem a corroborar suas ações”, afirmou um servidor.
“Esse sempre foi o alerta que a agência fez”, acrescentou.
Naquele momento, as fontes não apresentaram à reportagem provas de que uma operação estrangeira para interferir diretamente nas eleições estivesse em andamento. A preocupação relatada dizia respeito ao risco e à necessidade de acompanhar possíveis ações de influência, financiamento ou articulação externa.
No domingo, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, afirmou que o tribunal não havia identificado interferência estrangeira durante o primeiro turno. Segundo ele, não houve alerta dos setores do TSE nem ocorrência no dia da votação que pudesse ser caracterizada dessa maneira.
Dinheiro americano motivou pedido da AGU
O procedimento arquivado pela PF teve origem em uma representação apresentada pela AGU após a revelação de um programa do governo Donald Trump que previa recursos para iniciativas no Brasil contra o que classificava como “lawfare e censura”.
Segundo reportagem do jornal britânico The Guardian, repercutida pela imprensa brasileira, o governo americano destinou US$ 1 milhão, cerca de R$ 5 milhões, a um projeto voltado a apoiar grupos da sociedade civil críticos à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF).
A iniciativa foi batizada de “Combate à Litigância Deliberativa e à Censura no Brasil” e integrava um conjunto maior de recursos do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Diante da revelação, a AGU acionou a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR). O órgão sustentou que um eventual financiamento estrangeiro de ações destinadas a atingir instituições brasileiras poderia indicar uma estrutura de ingerência externa nos assuntos internos do país.
É justamente o destino desses recursos que está no centro das críticas ouvidas pelo ICL Notícias.
Para os servidores consultados, a existência de informações sobre recursos americanos destinados a iniciativas no Brasil justificava aprofundar a apuração para verificar se o dinheiro efetivamente chegou ao país, identificar eventuais destinatários e determinar a finalidade dos repasses antes de encerrar o procedimento.
O arquivamento significa que a análise preliminar realizada pela DIP não produziu, na avaliação da Polícia Federal, elementos suficientes para justificar a abertura de uma investigação formal.
A apuração sobre eventual financiamento e interferência externa não deve ser confundida com outra investigação conduzida pela PF após informações sobre possíveis ameaças a instalações diplomáticas americanas no Brasil.
No domingo, Andrei Rodrigues afirmou expressamente que os dois casos eram separados. No episódio das embaixadas, a PF chegou a cumprir mandados de busca e apreensão e informou não ter encontrado, até então, elementos concretos de um plano de ataque.
Já a apuração sobre possível interferência externa nas eleições não chegou a se transformar em inquérito. Aberto como procedimento preliminar após a provocação da AGU, o caso permaneceu por poucos dias sob análise da Diretoria de Inteligência da PF antes de ser arquivado.




