Cabo Verde escreveu um capítulo marcante em sua estreia em Copas do Mundo ao arrancar um empate sem gols diante da Espanha, nesta segunda-feira (15). Mais do que o resultado inesperado, a seleção africana deixou sua marca por um número impressionante: realizou somente uma falta durante os 90 minutos — a menor quantidade já registrada em uma partida do torneio.
Diante de uma adversária amplamente favorita, os cabo-verdianos adotaram uma postura de resistência. Recuados durante grande parte do confronto, permitiram que a Espanha controlasse as ações e terminaram com apenas 26% de posse de bola. Ainda assim, conseguiram manter a organização sem recorrer a infrações constantes.
O único lance faltoso aconteceu ainda no primeiro tempo, quando Sidny Lopes interrompeu uma jogada aos 16 minutos. O dado garantiu um lugar histórico para Cabo Verde nas estatísticas da competição, que contabiliza esse tipo de registro desde 1966.
A atuação defensiva foi sustentada por números expressivos: foram 45 cortes, 17 desarmes, 16 interceptações e 48 recuperações de bola. Nos duelos pelo chão, a equipe levou vantagem em 60% das disputas.
No gol, Vozinha foi determinante para segurar o empate e apareceu como principal nome da partida ao realizar sete defesas.
Pequeno em território e população — com pouco mais de meio milhão de habitantes —, o país africano que também tem o português entre seus idiomas oficiais começou sua trajetória em Mundiais mostrando capacidade de competir em alto nível.
Agora, Cabo Verde volta suas atenções para os próximos compromissos da fase de grupos: enfrenta o Uruguai no domingo (21) e encerra sua campanha inicial contra a Arábia Saudita no dia 26. Depois da atuação diante da Espanha, a possibilidade de uma classificação inédita ganhou força.
A atuação histórica contra a Espanha colocou Vozinha no centro das atenções da Copa do Mundo, mas o goleiro de Cabo Verde levou décadas para alcançar esse momento. Aos 40 anos, ele disputou seu primeiro Mundial e foi decisivo para garantir o empate sem gols da seleção africana em sua estreia no torneio.
Por trás da atuação que chamou atenção do mundo existe uma trajetória que começou em São Vicente, ilha cabo-verdiana onde nasceu em 3 de junho de 1986. Naquele mesmo ano, a Copa do Mundo disputada no México inspirou uma escolha importante dentro de casa: o nome que ele receberia.
O pai, Zé Pedro, militar e apaixonado por futebol, tinha um plano inicial para registrar o filho.
“Meu pai queria me chamar de Valdano, por causa do atacante argentino Jorge Valdano, do Real Madrid. Mas as autoridades não aceitaram”, contou o arqueiro, em entrevista exclusiva à ESPN.
Sem autorização para usar o primeiro nome escolhido, surgiu uma alternativa ligada ao futebol brasileiro. O nome definitivo foi inspirado em Josimar, lateral direito do Botafogo que marcou época ao balançar as redes duas vezes pela seleção brasileira naquele Mundial. Assim, o goleiro foi registrado como Josimar José Évora Dias.
“O meu pai e a minha avó torciam pelo Brasil. E meu pai gostava muito do Josimar”, afirmou Vozinha.
Mas o nome que o acompanharia no esporte acabou surgindo longe dos gramados profissionais.
Durante a infância, criado pelos avós Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes, Josimar cresceu em meio às partidas improvisadas na rua. Como havia poucas crianças da mesma idade, ele frequentemente jogava contra adolescentes mais velhos — e as disputas raramente eram leves.
“Muitas vezes ia com a cara trancada, chateada, cheia de raiva e falavam que eu ia fazer sempre queixas aos meus avós e começaram a me chamar de ‘Vozinha’. Ficava mais furioso por isso, mas com o tempo esse nome começou a ganhar outra dimensão”, contou.
O que começou como brincadeira entre amigos ganhou um significado diferente ao longo dos anos. Hoje, o apelido se tornou uma forma de carregar consigo a lembrança dos avós, personagens centrais em sua formação dentro e fora do futebol.






