A nova febre da torcida brasileira tem nome, ritmo e coreografia: a “Remada Créu”. A brincadeira surgiu como uma sátira bem-humorada à tradicional “Remada Viking”, entoada pela torcida da Noruega. Em vez de repetir o canto épico dos escandinavos, os brasileiros resolveram remar dando “créu”, transformando a coreografia em uma provocação tipicamente brasileira que rapidamente conquistou as redes sociais.
A criatividade brasileira, mais uma vez, mostrou que consegue responder ao humor com ainda mais humor. O norueguês rema fazendo “huggr!”. O brasileiro vem logo atrás remando e respondendo: “créu!”. Afinal, quando o assunto é transformar uma provocação em irreverência, dificilmente alguém supera o Brasil.
Legenda: Integrantes do Movimento Verde Amarelo executam a “Remada Créu”, coreografia que viralizou nas redes sociais durante jogos da Seleção Brasileira. A imagem também passou a alimentar discussões sobre quem ocupa os espaços da principal torcida organizada da Seleção.
Mas a brincadeira também levanta uma curiosidade interessante.
Quem lidera a coreografia é justamente o Movimento Verde Amarelo, torcida organizada da Seleção que, há anos, divide opiniões. Criado em 2008, o grupo é alvo de críticas por parte de torcidas tradicionais, que o classificam como um movimento mais elitizado, formado majoritariamente por pessoas de maior poder aquisitivo e com pouca diversidade racial. Também é frequentemente associado ao ambiente político da direita após a apropriação das cores da Seleção durante o ciclo do bolsonarismo uma relação que o próprio movimento nega representar oficialmente.
E aí nasce a ironia.
O “créu”, um dos maiores símbolos da cultura popular brasileira, surgiu nas periferias, nos bailes funk e nas camadas populares do Rio de Janeiro. É um produto da cultura de massa, negro, suburbano, irreverente e espontâneo.
Mas talvez a pergunta nem seja se a elite aprendeu a gostar do “créu”.
A elite brasileira sempre demonstrou enorme facilidade para consumir aquilo que nasce na periferia desde que a periferia permaneça do lado de fora.
O samba passou por isso.
O rap também.
O funk, então, nem se fala.
A cultura da favela vira produto. Vira entretenimento. Vira meme. Vira trilha sonora. Mas quem a produz continua encontrando dificuldade para ocupar os mesmos espaços de prestígio.
É justamente aí que a “Remada Créu” desperta uma provocação.
Em reportagem da CartaCapital, o Movimento Verde Amarelo é alvo de críticas de lideranças de torcidas organizadas tradicionais, que o classificam como um movimento de perfil elitizado, distante das arquibancadas populares e questionam a baixa diversidade racial observada em seus integrantes. A reportagem também registra que o grupo passou a ser frequentemente associado ao bolsonarismo após a apropriação das cores da Seleção por manifestações políticas da direita — associação que o próprio movimento rejeita oficialmente.
Se essas críticas procedem ou não, cabe ao leitor formar sua própria opinião.
Mas as imagens levantam perguntas difíceis de ignorar.
Se o “créu” nasceu na periferia…
onde está a periferia nessa arquibancada?
Onde estão os negros?
Onde estão os trabalhadores que fizeram do futebol brasileiro um patrimônio popular?
Porque cantar o refrão da favela parece ter sido fácil.
Difícil continua sendo enxergar a favela ocupando aquele mesmo espaço.
Talvez a verdadeira “Remada Créu” não seja sobre remar.
Seja sobre remar ao som da cultura popular brasileira sem precisar dividir o barco com quem a criou.
Afinal, apropriar-se da cultura da periferia nunca foi um grande problema para determinados setores da elite brasileira.
O desafio sempre parece ter sido outro: aceitar a periferia como protagonista, e não apenas como fornecedora de entretenimento.
No fim, a pergunta permanece.
A remada é “créu”…
Mas em quem?
Referência
CartaCapital. “Bolsonarismo? Elitismo? O que é o Movimento Verde e Amarelo, que acompanha o Brasil no Catar”
Texto: Tiago Breves







