Na política, existem discursos que sobrevivem ao tempo. Outros não conseguem sobreviver sequer ao dia seguinte.
Foi exatamente isso que aconteceu com a frase pronunciada pelo governador Roberto Cidade durante o lançamento de sua pré-candidatura ao Governo do Amazonas. Diante de apoiadores, em tom de desafio ao senador Omar Aziz, o governador declarou:
“Vai prender nada. Porque aqui só tem homem de bem.”
Menos de vinte e quatro horas depois, a realidade tratou de confrontar o discurso.
A Polícia Federal deflagrou a Operação Torre 8, desdobramento de uma investigação sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico internacional de drogas. Em Manaus, um dos principais alvos da operação foi Paulo Victor de Brito Alvino, apontado por diversos veículos de imprensa como integrante do núcleo familiar do governador, por ser filho de Adriana Cidade, prima de Roberto Cidade. As investigações tiveram origem após a prisão em flagrante do investigado, em 2025, quando ele tentava sacar R$ 300 mil em espécie de uma agência bancária. Segundo a Polícia Federal, a apuração passou a indicar a utilização de empresas para ocultação e movimentação de recursos supostamente ligados ao crime organizado. Até o momento, não há condenação definitiva no caso.
É importante deixar algo claro.
Ninguém responde criminalmente pelos atos de um parente.
O ordenamento jurídico brasileiro não admite culpa por vínculo familiar.
Mas a política não vive apenas de responsabilidade penal.
Ela também é construída sobre responsabilidade política, coerência e credibilidade.
E é justamente nesse ponto que surge a contradição.
Quando um governador sobe ao palco para afirmar, de forma absoluta, que ao seu redor “só tem homem de bem”, ele deixa de fazer apenas um discurso de campanha. Ele assume publicamente um certificado moral sobre o grupo que o cerca.
A realidade mostrou que a política é mais complexa do que slogans.
A prisão ou investigação de um familiar não transforma automaticamente um governante em responsável pelo fato. Entretanto, ela desmonta a narrativa de que existe um ambiente imune a escândalos, como se determinado grupo político estivesse acima de qualquer suspeita.
Ainda mais quando o próprio governador escolhe transformar esse argumento em arma eleitoral.
A coincidência temporal entre a declaração e a operação federal inevitavelmente amplia o desgaste político.
Porque não foi a oposição quem produziu essa contradição.
Foi a sequência dos acontecimentos.
A própria Polícia Federal.
E isso pesa.
Pesa porque a Operação Torre 8 não trata de uma infração administrativa qualquer. Segundo a PF, a investigação envolve suspeitas de lavagem de dinheiro vinculada ao tráfico internacional de drogas, um dos crimes mais graves enfrentados pelas forças de segurança do país.
O episódio também reacende outro debate importante.
Até que ponto grupos políticos conseguem separar relações familiares das estruturas de poder?
Essa pergunta não acusa ninguém.
Mas precisa ser feita.
Porque o cidadão comum exige da classe política exatamente aquilo que ela costuma cobrar dos adversários: coerência.
Quando Roberto Cidade afirmou que Omar Aziz “não prende ninguém”, tentou construir a imagem de que seu grupo representava a moralidade e a boa conduta.
Menos de um dia depois, a realidade produziu um constrangimento que nenhum marqueteiro conseguiria prever.
O maior problema talvez nem seja a operação policial.
É a frase.
Ela virou um retrato da imprudência política.
Na política moderna, discursos inflamados rendem aplausos.
Mas também envelhecem muito rápido quando os fatos resolvem aparecer.
E, desta vez, apareceram antes mesmo de o microfone esfriar.
O investigado citado tem direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência. Até o momento, não há condenação judicial definitiva relacionada aos fatos investigados. As referências ao governador dizem respeito exclusivamente ao impacto político decorrente da coincidência entre sua declaração pública e a operação policial divulgada pelas autoridades.
Sempre estaremos a disposição do contraditório como dever de ofício.
Fontes: Polícia Federal, CM7, PortalAM1, Portal Agora Notícias, D24.
Por Rafael Medeiros
TREZZE Comunicação Integrada.





