Por Jamil Chade e Cleber Lourenço
A Casa Branca rejeitou a tentativa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de se colocar como autodeclarado presidente eleito do Brasil, como uma espécie de Juan Guaidó para contestar o resultado das eleições brasileiras e recomendou que o senador permaneça abaixo do radar nos próximos dias. Segundo uma fonte do governo norte-americano ouvida pelo ICL Notícias, Washington ficou irritada com o tom da carta divulgada pelo parlamentar e comunicou aos bolsonaristas que não endossaria qualquer iniciativa para invalidar o processo eleitoral brasileiro, pelo menos neste momento.
A orientação ocorre às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, as chamadas midterms, marcadas para 3 de novembro. A avaliação na Casa Branca, segundo a fonte, é que uma intervenção na disputa eleitoral brasileira criaria um problema político adicional para Trump, que já enfrenta críticas de parlamentares democratas pela entrada de Flávio em território americano.
Fontes da área de inteligência consultadas pelo ICL Notícias afirmam que havia a expectativa de que a presença do senador brasileiro nos Estados Unidos pudesse representar um ativo eleitoral para Trump. O efeito, porém, teria sido o contrário. Em vez de produzir dividendos políticos, a chegada de Flávio passou a representar uma fonte de desgaste para o governo republicano.
Foi nesse cenário que a Casa Branca recomendou ao senador manter um perfil discreto, reduzir sua exposição pública e evitar qualquer tentativa de associar o governo americano à contestação das eleições brasileiras.
A mensagem de Washington foi transmitida antes de Trump declarar publicamente que não pretendia se envolver na questão. Quando o presidente americano anunciou sua posição, portanto, os bolsonaristas já haviam sido informados de que não teriam o apoio esperado, segundo a fonte consultada pela reportagem.
A fonte não soube informar se a negativa americana foi responsável pela posterior mudança no tom da carta de Flávio. Confirmou, porém, que houve uma manifestação clara de irritação da Casa Branca e uma comunicação expressa de que o governo Trump não apoiaria o pleito apresentado pelo senador.
Ao contrário do que Donald Trump tem adotado com governos considerados como inimigos, a Casa Branca não estabeleceu nenhum tipo de restrição a autoridades brasileiras em território americano. Nesta sexta-feira (30), o chanceler Mauro Vieira desembarca em Miami para a reunião de ministros do G20 e estará na mesma sala com o secretário de Estado, Marco Rubio. Para observadores, isso é um sinal de que do lado americano há normalidade na relação com o governo Lula.
Democratas cobram explicações sobre entrada de Flávio
A chegada de Flávio aos Estados Unidos provocou críticas de parlamentares democratas, que questionam o tratamento oferecido ao brasileiro enquanto o governo Trump mantém uma política de restrições à imigração e ao acolhimento de refugiados.
O deputado Joaquin Castro, do Texas, afirmou que perder uma eleição não justifica um pedido de asilo e cobrou explicações sobre a possível participação de autoridades americanas na saída do senador do Brasil.
“Perder uma eleição não é motivo para pedir asilo”, escreveu Castro no X.
As críticas também atingiram o secretário de Estado, Marco Rubio. Parlamentares democratas da Comissão de Relações Exteriores da Câmara questionaram por que o governo americano facilitou a entrada de Flávio enquanto pessoas que fogem de conflitos internacionais enfrentam restrições migratórias.
Em manifestação nas redes sociais, os democratas ironizaram a diferença de tratamento, afirmando que pessoas que fogem da violência enfrentam obstáculos para entrar nos Estados Unidos, enquanto políticos que contestam resultados eleitorais recebem acolhimento.
O deputado Jim McGovern, de Massachusetts, também criticou a atuação de Rubio e acusou o governo americano de oferecer proteção a políticos estrangeiros investigados pela Justiça. Já o senador Andy Kim, de Nova Jersey, questionou a diferença de tratamento entre Flávio e imigrantes haitianos e afegãos que enfrentam restrições nos Estados Unidos.
O deputado Shri Thanedar, de Michigan, também questionou a entrada de Flávio nos Estados Unidos. O parlamentar criticou a decisão do senador de deixar o Brasil em meio a investigações e cobrou explicações sobre a atuação do governo americano.
A pressão pública dos democratas coincide com a avaliação relatada pelas fontes de inteligência ao ICL Notícias: a presença do senador brasileiro, inicialmente considerada uma possível oportunidade política, passou a produzir um desgaste que a Casa Branca pretende evitar durante a reta final da campanha americana.
Embora tenha permitido sua entrada nos Estados Unidos, o governo Trump, segundo a fonte ouvida pela reportagem, estabeleceu um limite para o apoio político que está disposto a oferecer a Flávio.
A orientação transmitida ao senador é não ampliar a crise, não envolver a Casa Branca e evitar novos movimentos públicos que possam transformar sua permanência nos Estados Unidos em mais um tema da disputa eleitoral americana.






