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Onda de violência bolsonarista atinge eleitores de Lula após derrota de Flávio


Por Cleber Lourenço

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas eleições presidenciais foi seguida por uma onda de violência, ameaças e perseguição contra eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Desde o segundo turno, realizado no domingo (25), relatos de agressões físicas, intimidação de trabalhadores, ameaças a indígenas e campanhas de boicote a comerciantes têm se multiplicado nas redes sociais e na imprensa regional. Parte dos episódios já provocou investigações policiais e ações do Ministério Público.

A dimensão da violência também aparece nos números oficiais. O Ministério Público do Trabalho (MPT) contabilizou 2.467 denúncias de assédio eleitoral em 2026, das quais mais de 530 foram registradas após o segundo turno. Os relatos incluem ameaças de demissão, discriminação profissional e tentativas de constranger trabalhadores identificados como apoiadores de Lula.

Nesta quarta-feira (28), o ministro Guilherme Boulos apresentou um levantamento preliminar de 45 episódios de violência política relacionados ao período eleitoral, incluindo dez mortes. Entre as ocorrências contabilizadas estão atropelamentos, espancamentos, ataques com armas de fogo, violência contra indígenas e denúncias de abusos policiais. O balanço abrange episódios registrados desde a véspera da votação e não significa que todos tenham autoria ou motivação bolsonarista comprovada.

Agressões e ameaças se espalham pelo país

Em Goiânia, um homem de 70 anos foi derrubado e agredido a chutes enquanto vestia uma camiseta vermelha. A vítima sofreu uma fratura no nariz. Segundo familiares, o agressor demonstrava revolta com a vitória de Lula. O episódio foi registrado por câmeras, e a polícia investiga as circunstâncias do ataque. A família afirma que o idoso sequer era militante petista.

Em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, a vereadora Iara Pimentel (PT) foi atingida no rosto por um objeto arremessado durante uma carreata em apoio a Lula, na véspera da eleição. Imagens mostram homens vestidos de verde e amarelo lançando objetos contra os participantes. A Polícia Federal abriu um inquérito para investigar o ataque.

Em Balneário Camboriú, Santa Catarina, vídeos divulgados nas redes sociais mostram confrontos e agressões durante as comemorações do resultado eleitoral. Em uma das gravações, um homem vestido de vermelho aparece sendo espancado por pessoas identificadas visualmente com o campo bolsonarista. As imagens registram a violência, mas a dinâmica completa do confronto e a responsabilidade individual dos envolvidos ainda precisam ser esclarecidas.

A violência também alcançou brasileiros no exterior. Em Lisboa, uma adolescente de 17 anos, identificada como eleitora de Lula, foi agredida com um soco no rosto após a votação. Testemunhas apontaram um apoiador de Flávio Bolsonaro como responsável. O episódio foi comunicado às autoridades portuguesas e acompanhado pelo consulado brasileiro.

Em General Carneiro, Mato Grosso, o vereador Marcos Aurélio Bento Pena (MDB) foi detido após efetuar disparos de arma de fogo em direção a pessoas que comemoravam a vitória de Lula. Duas mulheres ficaram feridas durante o episódio. O parlamentar foi liberado mediante fiança, e as circunstâncias do ataque são objeto de apuração.

Outros episódios tiveram consequências fatais, embora ainda não seja possível atribuir motivação política deliberada a todos eles. Em Vargem Alegre, Minas Gerais, Elisabete Martins Chaves, de 54 anos, morreu após ser atropelada enquanto aguardava a passagem de uma carreata pró-Lula. Em Mangueirinha, no Paraná, Eliseu Pedrozo dos Santos, de 38 anos, morreu após um veículo avançar contra uma área onde havia comemoração eleitoral. Os casos exigem investigação para esclarecer a conduta dos motoristas e a existência de eventual motivação política.

Perseguição chega ao trabalho e ao comércio

A violência não ficou restrita às agressões físicas. Nos dias seguintes à eleição, políticos, empresários e influenciadores identificados com o bolsonarismo passaram a defender publicamente a demissão de trabalhadores que votaram em Lula.

No Rio de Janeiro, a deputada estadual Índia Armelau (PL-RJ) tornou-se alvo de uma ação civil pública do Ministério Público do Trabalho após incentivar empresários a examinar as redes sociais dos funcionários para identificar apoiadores do presidente. O órgão pede R$ 500 mil por danos morais coletivos.

No Paraná, o vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo), eleito deputado federal, recebeu uma recomendação formal do MPT para retirar uma publicação em que incentivava a demissão de eleitores de Lula, retratar-se publicamente e interromper a divulgação de mensagens discriminatórias.

As campanhas de perseguição também passaram a atingir estabelecimentos comerciais. Em diferentes municípios, listas com nomes de empresas, profissionais liberais e pequenos comerciantes considerados simpatizantes do PT começaram a circular em grupos de WhatsApp e nas redes sociais.

Em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha, pelo menos 30 pessoas procuraram a polícia para registrar ocorrências relacionadas à divulgação dessas listas. A informação foi confirmada pelo delegado Fábio Idalgo Peres. Os documentos identificam preferências políticas e estimulam boicotes a estabelecimentos associados a Lula.

Em Serrana, no interior de São Paulo, comerciantes relataram intimidações e prejuízos após terem seus nomes associados ao PT. Entre os episódios denunciados estão cancelamentos de atendimentos e ofensas dirigidas a funcionários de estabelecimentos comerciais.

O empresário Francisco Meghelli, do setor imobiliário, relatou a circulação de listas envolvendo seu negócio e afirmou ter recebido abordagens de caráter ameaçador. Segundo ele, uma cabeleireira perdeu três atendimentos, enquanto funcionários de uma loja de açaí foram hostilizados.

Em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, uma lista com quase cem estabelecimentos e profissionais considerados apoiadores de Lula passou a circular nas redes sociais. Entre os alvos estavam comerciantes, dentistas, fisioterapeutas e advogados.

Em Teresópolis, também na Região Serrana, o advogado Klaus Fins, identificado como bolsonarista, sugeriu em vídeo que estabelecimentos ligados ao PT fossem marcados com uma estrela vermelha na entrada. A prefeitura condenou publicamente a proposta, apontando seu caráter discriminatório.

Agentes públicos também aparecem nas denúncias

Em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, um policial militar passou a ser investigado após denúncias de que estaria divulgando listas de estabelecimentos comerciais associados a Lula. A Polícia Militar confirmou a abertura de um procedimento para apurar a conduta do agente.

Em Macaé, a procuradora municipal Renata Pinto Rodrigues Pimentel Ribeiro afirmou nas redes sociais que deixaria de promover políticas públicas destinadas a beneficiar petistas. Ela também incentivou empresários a não contratar pessoas identificadas com o partido. A prefeitura encaminhou o caso à Procuradoria-Geral do município.

As declarações levantam uma questão que ultrapassa a disputa eleitoral: o possível uso de funções públicas para discriminar cidadãos em razão de suas preferências políticas.

Em Florianópolis, a atuação da Polícia Militar durante as comemorações da vitória de Lula também passou a ser investigada. Um motociclista sofreu fraturas e precisou passar por cirurgia depois de ser atingido por uma viatura da Polícia Militar Rodoviária, no bairro dos Ingleses. O Ministério Público de Santa Catarina instaurou procedimento para esclarecer as circunstâncias do episódio.

Indígenas são ameaçados após resultado eleitoral

Em Tacuru, Mato Grosso do Sul, um servidor municipal foi afastado temporariamente depois da divulgação de um áudio em que sugeria envenenar a água consumida por indígenas da região da Aldeia Sassaró, após a vitória de Lula.

O prefeito Rogério Torquetti (PSDB), apoiador de Flávio Bolsonaro, confirmou o vínculo do funcionário com a administração municipal e anunciou a abertura de um procedimento administrativo. O governo federal acionou a Polícia Federal para investigar a ameaça.

O episódio integra um conjunto mais amplo de denúncias de intimidação contra comunidades indígenas durante o período eleitoral. Organizações indígenas também relataram ameaças e episódios de violência em outros municípios de Mato Grosso do Sul, embora nem todos tenham autoria e motivação esclarecidas.

Redes sociais expõem vítimas e multiplicam denúncias

Parte importante dessa onda de violência tem sido documentada pelos próprios eleitores. Vídeos de agressões, fotografias de ferimentos, mensagens de ameaça e relatos de intimidação passaram a circular no X, Instagram, Facebook e grupos de WhatsApp.

As publicações também mostram como a perseguição política pode alcançar pessoas que sequer participam diretamente de campanhas eleitorais. Em alguns casos, basta vestir vermelho, publicar uma manifestação de apoio a Lula ou trabalhar em um estabelecimento associado ao PT para se tornar alvo de hostilidade.

Ao mesmo tempo, a circulação acelerada de imagens exige cuidado na identificação dos responsáveis. Nem todo vídeo apresentado como agressão política teve sua motivação confirmada, e algumas ocorrências divulgadas nas redes ainda dependem de registros policiais ou testemunhos independentes.

O que já está documentado, entretanto, é que a violência ultrapassou os confrontos entre militantes e alcançou trabalhadores, comerciantes, adolescentes, idosos e comunidades indígenas.

Com investigações abertas em diferentes estados, o Ministério Público e as polícias terão de esclarecer não apenas a responsabilidade pelos ataques, mas também se as campanhas de intimidação e perseguição econômica foram iniciativas isoladas ou tiveram alguma forma de articulação entre seus participantes.





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